Protocolos caros não são sinônimo de evidência: o que diz a ciência sobre programas de manejo de crises agressivas
- Leandro Morais

- 11 de mar.
- 3 min de leitura

Nos últimos anos, escolas, clínicas e instituições de atendimento têm investido quantias significativas em programas comerciais de manejo de crise comportamental. Esses programas frequentemente vendidos como “pacotes completos” de treinamento prometem preparar profissionais para prevenir e lidar com episódios de agressividade, autolesão ou desorganização comportamental em pessoas com deficiência.
A promessa é sedutora: treinamento rápido, certificação institucional e supostas soluções para situações complexas. No entanto, quando examinamos a literatura científica, a realidade é bem menos convincente.
Um estudo de revisão sistemática recente, conduzido por Wasersztein e colaboradores, analisou a base científica de 23 programas comerciais de manejo de crise utilizados em contextos educacionais com estudantes com deficiência. O objetivo foi simples: verificar se existe evidência empírica robusta de que esses programas realmente produzem benefícios mensuráveis.
O resultado é alarmante.
Após uma busca extensa em bases científicas e documentos institucionais, os autores encontraram apenas seis estudos que avaliavam cinco desses programas. Ou seja, a enorme maioria dos programas amplamente comercializados simplesmente não possui estudos avaliando sua eficácia.
E a situação fica ainda mais preocupante quando analisamos a qualidade desses estudos.
Grande parte das pesquisas encontradas utilizava métodos qualitativos, questionários de percepção ou avaliações indiretas, como satisfação com treinamento ou percepção de competência dos profissionais. Apenas um estudo utilizou um delineamento experimental mais robusto e isso há mais de trinta anos.
Isso significa que, de acordo com os critérios atuais para práticas baseadas em evidência na educação especial, nenhum dos 23 programas avaliados atende aos padrões mínimos para ser considerado uma prática baseada em evidência.
Mesmo assim, esses programas continuam sendo vendidos com promessas de redução de crises, diminuição de contenções físicas e aumento da segurança institucional. Em muitos casos, tais afirmações aparecem em materiais de marketing sem qualquer referência a estudos científicos que as sustentem.
Esse fenômeno não é novo. Na área do autismo e das intervenções comportamentais, existe uma tendência recorrente de transformar procedimentos isolados em “protocolos proprietários”, muitas vezes acompanhados de certificações caras e treinamentos padronizados.
O problema não está em treinar equipes isso é absolutamente necessário. O problema surge quando a certificação substitui o raciocínio clínico.
Programas de manejo de crise frequentemente incluem estratégias legítimas, como:
análise de antecedentes
estratégias de desescalada
modificação ambiental
ensino de habilidades de comunicação
reforçamento de comportamentos alternativos
Contudo, essas estratégias não pertencem a um protocolo comercial específico. Elas fazem parte de décadas de pesquisa em análise do comportamento, educação especial e psicologia aplicada.
Quando profissionais passam a acreditar que a segurança depende de comprar um método, em vez de desenvolver competência técnica e análise funcional do comportamento, cria-se uma dependência perigosa.
Além disso, o estudo destaca outro ponto crítico: muitas dessas intervenções incluem procedimentos de contenção física, que deveriam ser utilizados apenas como último recurso em situações de risco iminente.
Sem uma base científica sólida e sem avaliação rigorosa de resultados, existe o risco de que tais procedimentos sejam aplicados com frequência maior do que o necessário ou sem considerar a função do comportamento.
A ciência comportamental já demonstrou repetidamente que comportamentos desafiadores precisam ser compreendidos funcionalmente. Estratégias padronizadas, aplicadas de forma genérica, dificilmente substituem uma avaliação funcional bem conduzida e intervenções individualizadas.
O ponto central não é rejeitar treinamentos ou programas estruturados.
O ponto central é lembrar que intervenções em comportamento humano não podem ser reduzidas a manuais de certificação.
Antes de investir recursos públicos ou privados em programas caros, gestores e profissionais deveriam fazer uma pergunta simples:
Existe evidência científica sólida de que isso realmente funciona?
Se a resposta for “não sabemos”, então talvez o investimento mais inteligente seja outro: formação técnica baseada em ciência, supervisão qualificada e análise de dados clínicos reais.
Porque, no fim das contas, evidência não se compra em um certificado — ela se constrói com pesquisa e prática responsável.
Leandro A. Morais
Neuropsicólogo (CRP 06/125592)
Especialista em Análise do Comportamento Aplicada e Educação Especial
MBA em Gestão Inovação de Serviços de Saúde
Supervisor em Análise do Comportamento Aplicada (ABA) e consultor em gestão de clínicas de autismo
Diretor do NCEI Clínica e Consultoria
Você pode baixar o estudo aqui:




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