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Diagnóstico de Autismo: entre expansão, erro e responsabilidade clínica

Obs: Os estudos estão no final do texto

Nos últimos anos, o aumento expressivo dos diagnósticos de Transtorno do Espectro Autista (TEA) tem gerado debates intensos tanto na comunidade científica quanto na prática clínica. Entre as questões mais relevantes está uma que aparece com frequência: estamos diante de um avanço na identificação ou de uma possível expansão diagnóstica com riscos de erro?


A resposta, como costuma acontecer em saúde, não é simples.


O desafio central: não existe “padrão-ouro”


Diferente de outras condições médicas, o diagnóstico de autismo não é feito por meio de exames laboratoriais ou biomarcadores objetivos. Trata-se de um diagnóstico clínico, baseado na observação comportamental, histórico de desenvolvimento e aplicação de critérios diagnósticos.

Essa característica impõe uma limitação importante à ciência: não é possível quantificar, com precisão, quantos diagnósticos estão “errados”. Ainda assim, isso não significa ausência de evidência apenas que ela aparece de forma indireta e mais complexa.


O que os estudos mostram


Diversos trabalhos ajudam a compreender esse cenário.

O estudo clássico de King e Bearman (2009), publicado no Annals of Epidemiology, demonstrou que parte significativa do aumento na prevalência do autismo pode ser explicada por mudanças nos critérios diagnósticos. Em outras palavras, indivíduos que anteriormente não seriam classificados dentro do espectro passaram a ser incluídos.

Mais recentemente, Fombonne (2023) discutiu a possibilidade de sobrediagnóstico (overdiagnosis), apontando que a ampliação dos critérios e o contexto clínico podem favorecer diagnósticos em casos mais leves ou com maior complexidade psiquiátrica.

Além disso, estudos epidemiológicos mostram uma variabilidade relevante nas taxas de diagnóstico entre serviços e regiões, o que sugere inconsistência nos processos diagnósticos — um indicativo indireto de possível erro.


Evidência mais direta: o que diz a literatura recente


Um ponto importante nesse debate aparece em um artigo recente publicado no JAMA Pediatrics por Liao e Fombonne (2026).

Os autores discutem o sobrediagnóstico como um fenômeno real e multifatorial, destacando aspectos como:

  • ampliação dos critérios diagnósticos

  • uso inadequado ou interpretação equivocada de instrumentos padronizados

  • pressão para acesso a serviços e intervenções

  • confusão entre sintomas nucleares do autismo e outras condições (como ansiedade ou TDAH)


Um dado particularmente relevante citado no artigo mostra que quase metade das crianças diagnosticadas com autismo na comunidade não confirmou o diagnóstico quando reavaliada por equipes especializadas.

Esse tipo de achado não resolve a questão, mas muda o nível do debate: o risco de erro diagnóstico deixa de ser apenas uma hipótese e passa a ser um fenômeno observado na prática clínica.


O outro lado do problema


É fundamental destacar que esse cenário não se resume ao sobrediagnóstico.

A literatura também aponta para o subdiagnóstico, especialmente em grupos como mulheres, adultos e indivíduos com perfis menos clássicos. Ou seja, o desafio não é apenas diagnosticar “demais”, mas diagnosticar com precisão.


Implicações clínicas e éticas


A expansão diagnóstica, quando não acompanhada de rigor clínico, pode gerar consequências relevantes:

  • diluição de recursos terapêuticos

  • direcionamento inadequado de intervenções

  • rotulação de quadros que não apresentam prejuízo funcional significativo

  • risco de negligenciar casos mais graves que demandam maior suporte


Por outro lado, o diagnóstico correto continua sendo uma ferramenta essencial de acesso a cuidado, intervenção precoce e planejamento terapêutico.


Conclusão: precisão acima de tudo


O debate sobre “banalização” do diagnóstico de autismo não deve ser conduzido de forma simplista. A evidência científica atual aponta para um cenário mais complexo, envolvendo expansão diagnóstica, variabilidade clínica e riscos reais de erro — tanto para mais quanto para menos.

Diante disso, o caminho mais consistente não é negar o problema nem amplificá-lo de forma alarmista, mas reforçar a necessidade de avaliações criteriosas, baseadas em múltiplas fontes de informação, análise funcional e compreensão do impacto real no funcionamento do indivíduo.

Diagnosticar não é apenas classificar. É um ato técnico, ético e, sobretudo, de responsabilidade.


Leandro A. Morais 

Neuropsicólogo (CRP 06/125592)

Especialista em Applied Behavior Analysis

Especialista em Educação Especial

MBA em Gestão e Inovação em Serviços de Saúde Consultor em Saúde Aplicada ao TEA


Você pode baixar os estudos aqui :



 
 
 

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